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A comida era algo simples, natural. Hipócrates dizia a seus discípulos que era o melhor remédio

Atualizado: há 2 dias




A comida era algo simples, natural. Hipócrates dizia a seus discípulos que era o melhor remédio. Nem nas formaturas dos médicos modernos esse ensinamento é considerado. Juram respeitar a herança hipocrática com os dedos cruzados nas costas.


De algo simples, a comida virou um gigantesco mercado. Logo surgiram os cheffs e os cursos de nutrição. Com a ciência surgiram as dietas, as misturas, os carboidratos e as proteinas. Tudo então, a partir dos anos 1930, passou a girar profissionalmente em torno da boca, dos dentes, da lingua e do suco gástrico. Entramos na era moderna do Deus da Comida. Seu culto envolve talheres, toalhas, garçons, copos, parentes, alcool e brigas na mesa. Até os que bebem muito "comem água". A comida virou religião.


É incalculável a quantidade de livros sobre comidas. Desde os de receitas aos de doenças provocadas pelas receitas. Livros sobre a historia da comida, a paleontologia do alimento, as dietas ancestrais, sobre o jejum e a necessidade do descanso do estômago. Surgiram então os conceitos de carnívoros, onivoros, veganos, vegetarianos e os macrobióticos. Até comedores de luz começaram a brotar como alternativa mais em conta.


Eu já li um monte desses livros. Receitas estrambólicas, outras simples como arroz e feijão, o infalível papai-mamãe da mesa. Todas elas incompletas, imperfeitas. Porque todas se restringem à única boca, a que às vezes cospe no prato que comeu.


TODAS AS BOCAS


Os orientais sabem que temos cinco e não uma inquieta boca na cara. A maior de todas é a pele. Por ela comemos o que aparece na frente e atrás. Às vezes selecionamos o que serve e descartamos os excessos no suor. Mas na maioria das vezes engolem-se porcarias jogadas pelo próprio dono no indefeso corpo. Cremes hidratantes, bloqueadores solar, loções, pomadas, botox e tintas de tatuagens pra todo lado. Um massacre.


Os olhos são as bocas movidas à sedução. São eles que se alimentam de imagens, cores e fantasias. As cores laranja, amarelo e vermelha estimulam as papilas gustativas. O verde e o azul passam sensação de conforto de um lugar confiável. A meta do marketing e da propaganda é botar definitivamente a barriga nos olhos.


O nariz é a boca movida pelo olfato. Nada como o cheiro do café pra atiçar o vício da cafeina ou o cheiro de pão para o vício do trigo. O assar das carnes libera um cheiro único de corpo em combustão, carnívoros se ajoelham. Um dia a propaganda perfeita terá cheiro nos comerciais pra completar a sedução.

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A última boca está nos ouvidos, a audição. As mensagens, o tom das vozes, o deselegante falar de boca cheia, o tilintar de taças, o crepitar das brasas dos churrascos ativam a fome de comida. O barulho dos grandes restaurantes, as risadas e os brindes que festejam a comilança. O som do croc da mordida da maçã é imbatível. A música das comidas atormentam os sem comida.


Existem tantas outras bocas nos sonhos, nas memórias afetivas, nas tradições, nas cerimonias. Bocas famintas nos almoços de negócio ativam a comida como símbolo de sucesso. Para isso a mesa é farta, o cardapio é variado e a sofisticada carta de vinhos pra fechar a demonstração de força.


Comida como ritual familiar, símbolo de clã, pertencimento e poder patriarcal. Comida das gangues, dos chefes da máfia, dos contratos de grandes negocios e das captações de dinheiros para as campanhas. E por fim, a comida dos amantes, o ritual de sedução passa por um jantar estratégico ou por um almoço antes do abate.


A COMIDA DOS GENOCIDAS


A fome chega a ser uma catástrofe, algo inadmissível. No mundo acaba de bater novo recorde com 281 milhões de famintos. E tem a comida como fator de inclusão. Aqueles que aceitam os acordos são incorporados, os que rompem são excluidos do banquete. Os que deixam de comer carne evitam e são evitados nos churrascos. Os que passam a comer são naturalmente excluidos dos amigos veganos. Os famintos são excluidos de todos os grupos.


Todo fascista é carnivoro, todo progressista é vegano. Pessoas são qualificadas pelo tipo do cardápio, ainda que essa classificação não tenha o menor sentido. O símbolo do alimento é tão poderoso que uma das máximas comportamentais é “você é aquilo que come”. Uma mentira, óbvio.


Adolf Hitler era vegetariano, dado finalmente confirmado por cientistas franceses em 2017. A ironia é que o fuhrer genocida era realmente contra a matança de animais.


O sanguinário primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu é igualmente vegetariano no país mais vegano do mundo. Em 2023, ele deu posse à ativista vegana Tal Giboa como conselheira de políticas dos direitos dos animais. Sob seu comando, Israel já matou mais de 40 mil palestinos em Gaza.


Não existe comida perfeita nem há como generalizar cardápios. Cada pessoa é um universo exclusivo movido por gens, culturas, crenças e sabores. Há um prato adequado para cada indivíduo. Para saber qual, é preciso usar todos os sentidos, o faro, o tato, os olhos, ouvir o instinto e por fim usar a boca. Daí em diante, a complexidade da natureza nas entranhas vai transformar sua comida em saúde ou doença, em vida ou em morte.


Escolham!


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