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AS ÁGUAS DE MAIO


A desilusão liberta. Por mais dolorida que seja, a desilusão é a chamada na chincha, a puxada pra real. O que a natureza vem fazendo com seus inquilinos insanos é essa chamada na chincha. Há muitos anos os humanos são alertados sobre sua voracidade no planeta. A maioria não ouve, nenhuma atenção, nem a ciência, nem as catástrofes são capazes de convencê-los. Até que o céu desaba.


A natureza então passa o rôdo. Aí imagina-se que o céu desaba apenas porque os devoradores devastam florestas, rios e mares. Essa é uma parte da história. O céu desaba porque a devastação extrapola os quatro elementos e alcança os níveis subjetivos dos sentimentos, dos pensamentos e das intenções.


Mentes horrorosas geram atmosferas horrorosas. Chama-se psicosfera densa. Assim está o planeta, mergulhado em uma densidade de mentiras, insuportável para os mais sensíveis. E essa densidade tem efeitos além da imaginação.


A quantidade de pessoas deprimidas só aumenta. Mais de 300 milhões de humanos sofrem de depressão, o mal do século, segundo a ONU. O álcool vira válvula de escape, os vícios, as redes sociais. Muitos não sabem, mas os pensamentos se espalham, criam asas, viram massa doente e voam para todos os lugares. Entram nas salas de jantar, nos banheiros, nos casebres, embarcam nos metrôs, nos aviões, deitam nas camas, acordam os bebês. Os pensamentos viram crenças que invadem outros pensamentos, assumem corpos que podem torturar e matar.


Neste momento, milhares de pessoas são mortas no mundo por pensamentos e ações de ódio. As vinte e oito guerras hoje em andamento lançam na atmosfera toneladas de medo, raiva, vingança e prazer mórbido.

Em Gaza, os mais recentes relatórios expõem o tamanho da catástrofe. Mais de 420 jornalistas e nove mil mulheres assassinados, além de milhares de crianças mutiladas por soldados israelenses.


"Assassinados" significa mortos a sangue frio, cara a cara. Ainda estão nesse relatório os quase 40 mil palestinos vítimas dos ataques a bomba, drones, tiros de canhão, fome e doenças. É isso que está encravado hoje na psicosfera do planeta. Some-se a carga de traumas, medo e impotência dos atingidos pelas ebulições da natureza de Norte a Sul. No Rio Grande do Sul, cerca de dois milhões de seres estão assim, devastados.


Há porém um lado incrível nessas tragédias - as manifestações de solidariedade. Catástrofes tiram gentilezas dos armários e de lugares imprevistos. Imagino que muitos gaúchos jamais imaginariam ser ajudados por nordestinos, nortistas e gente de todas as partes do país. Logo eles que um dia buscaram a independência do resto do Brasil. Nessa hora, o que essa nação independente faria sob um provável governo neoliberal com pendores neofascistas?


Há sim um lado positivo nas catástrofes, elas levam a rever posições e a elaborar novos conceitos. Levam também a descer dos pedestais e beijar o chão. Duvido, porém, que isso ocorra em larga escala. Há cerca de dois anos, uma pandemia matou milhões no mundo, no Brasil cerca de 700 mil e rapidamente essa memória foi parar na pasta de arquivos deletados. As mentiras continuaram, o individualismo e os negacionismos também.


Do mesmo jeito, no dia depois de amanhã no RS, quando todos os voluntários partirem, o mau cheiro da morte passar e as cidades ganharem novas casas, as memórias das águas de maio também baixarão. Pessoas não mudaram com a longa catástrofe da pandemia que durou dois anos, mudarão com uma tragédia climática de dois meses? O esquecimento é um flagelo.



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