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A MORTE QUE AGIGANTA

Atualizado: 19 de mai.



É um privilégio morrer assim, sentado numa mesa de reunião de trabalho espiritual, após falar sobre harmonia entre os seres. Baixar a cabeça e dormir.

Assim partiu o médico André Luiz Peixinho no sábado, 30 de março, aos 72 anos. Repentinamente parou de falar, baixou a cabeça e se foi ali diante dos amigos.


Peixinho é desses caras insubstituiveis. Professor de medicina não se contentou e mergulhou na psicologia e na filosofia. Se jogou no trabalho das obras sociais de Irmã Dulce.

Consta que a religiosa certa vez se queixou a ele sobre a presença inconstante de médicos estagiários no hospital da instituição. Quando termina o estágio eles simplesmente vão embora e abandonam os pacientes, lamentou a idosa. Peixinho foi direto: vou resolver isso.


Mobilizou meio mundo na Universidade Federal da Bahia, onde ensinava, e conseguiu criar a residência médica da UFBA nas Obras de Irmã Dulce. A partir dai nunca mais faltaram médicos.

Peixinho morreu sereno e trabalhando pelo bem. Morreu como viveu.


Outro que se foi trabalhando por amor a causa foi o ator Ed Ribeiro. Eu tinha feito direção musical da peça "Mãos Sujas de Terra", de Ari e Zoila Barata, no final dos anos 80. Ed fazia o personagem central. As luzes se apagam na Sala do Coro do TCA, todos os atores deitam no chão. As luzes vão voltando aos poucos simulando o nascer do sol. Os trabalhadores começam a levantar, espreguiçando-se, saudando o dia. Menos Ed. Morreu ali, ao deitar e fechar os olhos. Que choque e que luxo. Sem dor, sem medo, sem aviso.


Sivuca o velho sanfoneiro autor de "Joao e Maria" com Chico e Nara, "Feira de Mangaio" dentre dezenas de temas incríveis, partiu assim: ajeitou a sanfona na mesa, deitou num banco na coxia do teatro pra relaxar após o show e morreu. Quieto, silencioso, imenso.

Acho que os grandes vivem assim como grandes e morrem maiores ainda, morrem gigantes.


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