VocĂȘ tem fome de que?
- Arthur Andrade Tree
- 21 de out. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de mai. de 2025

"NĂŁo Ă© a fome, nem terremotos, nem micrĂłbios, nem o cĂąncer. O humano Ă© o maior perigo do humano, pela simples razĂŁo de que nĂŁo existe proteção contra epidemias psĂquicas, infinitamente mais devastadoras do que a pior catĂĄstrofe natural".
Carl Gustav Jung
Gente feita com bomb timer, com contagem regressiva, feita de garrafas pet, microplĂĄstico bolha.
Gente gerada no fertilizante, fertilizada com ração ensacada e criada entre tijolos, cimento e asfalto.
A nova humanidade produzida em série diante do celular, das necessidades industriais e dos desejos infindåveis estå devorando a si e ao planeta.
Ă uma civilização previsĂvel, programada e com timer por voz. Em cada ser hĂĄ um codigo de barras interno, cĂąmeras de segurança e controles por joy sticks. Ă tudo feito para acreditar que as vontades sĂŁo prĂłprias, que existem liberdades individuais, missĂ”es especiais e que a existĂȘncia Ă© uma grande oportunidade de negĂłcio. Uma vida inteira sobre rodas de borracha, colchĂ”es de espuma e alimentos dentro de plĂĄsticos.
A vida se cria nos supermercados e agora nos sites do e-commerce. Nesse universo paralelo, a nova humanidade busca a realização, o amor-posse-para-sempre, a famĂlia protegida, a comida garantida, o jogo de azar e a prĂłxima partida. Dia apĂłs dia encara a repetição disfarçada de novidades, o mais do mesmo de sempre. Viver vira sobreviver cercada de lixos tĂłxicos com design de natureza nas embalagens. Uma vida de embalagens vibrantes.
Nunca foi tĂŁo clara e atual a força da frase de HipĂłcrates do remotĂssimo SĂ©culo 5 a.C, âsomos o que comemosâ. A saĂșde, a doença e a cura estĂŁo no mesmo lugar, na boca do caixa do supermercado e da farmĂĄcia.
A visĂŁo geral do senso comum tem pouco e baixo alcance, o suficiente para acordar no prĂłximo dia com comida na mesa. Ă preciso manter o estĂŽmago entretido.
Enquanto essa gigantesca maioria roda no automĂĄtico, uma absurda minoria de oitenta famĂlias movimenta os cordĂ”es em suas mansĂ”es cercadas de cĂąmeras, armas de precisĂŁo, serviçais com aventais e os restos dos banquetes nos tonĂ©is de lixo que alimentariam vilas inteiras.
Essa humanidade também tem seu timer, o implacåvel tic tac. Tenha fé, essa dinamite não estå na mochila deixada na estação de trem, nem amarrada no corpo de uma criança bomba. Também não estå no smartphone, no tablet israelense, nem no colchão de poliuretano. Estå no prato na sua frente repleto de macarrão de trigo, molho de tomate e muita ùnsia de tapar buracos.
A Ăąnsia de encher a barriga para nĂŁo pensar em nada a nĂŁo ser matar o que estĂĄ te matando, essa angustiante contagem regressiva. AtĂ© as oitenta famĂlias implodirĂŁo.
Boa digestĂŁo.

