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VocĂȘ tem fome de que?

Atualizado: 25 de mai. de 2025




"Não é a fome, nem terremotos, nem micróbios, nem o cùncer. O humano é o maior perigo do humano, pela simples razão de que não existe proteção contra epidemias psíquicas, infinitamente mais devastadoras do que a pior catåstrofe natural".

Carl Gustav Jung


Gente feita com bomb timer, com contagem regressiva, feita de garrafas pet, microplĂĄstico bolha.

Gente gerada no fertilizante, fertilizada com ração ensacada e criada entre tijolos, cimento e asfalto.


A nova humanidade produzida em série diante do celular, das necessidades industriais e dos desejos infindåveis estå devorando a si e ao planeta.


É uma civilização previsĂ­vel, programada e com timer por voz. Em cada ser hĂĄ um codigo de barras interno, cĂąmeras de segurança e controles por joy sticks. É tudo feito para acreditar que as vontades sĂŁo prĂłprias, que existem liberdades individuais, missĂ”es especiais e que a existĂȘncia Ă© uma grande oportunidade de negĂłcio. Uma vida inteira sobre rodas de borracha, colchĂ”es de espuma e alimentos dentro de plĂĄsticos.


A vida se cria nos supermercados e agora nos sites do e-commerce. Nesse universo paralelo, a nova humanidade busca a realização, o amor-posse-para-sempre, a família protegida, a comida garantida, o jogo de azar e a próxima partida. Dia após dia encara a repetição disfarçada de novidades, o mais do mesmo de sempre. Viver vira sobreviver cercada de lixos tóxicos com design de natureza nas embalagens. Uma vida de embalagens vibrantes.


Nunca foi tĂŁo clara e atual a força da frase de HipĂłcrates do remotĂ­ssimo SĂ©culo 5 a.C, “somos o que comemos”. A saĂșde, a doença e a cura estĂŁo no mesmo lugar, na boca do caixa do supermercado e da farmĂĄcia.


A visão geral do senso comum tem pouco e baixo alcance, o suficiente para acordar no próximo dia com comida na mesa. É preciso manter o estîmago entretido.


Enquanto essa gigantesca maioria roda no automåtico, uma absurda minoria de oitenta famílias movimenta os cordÔes em suas mansÔes cercadas de cùmeras, armas de precisão, serviçais com aventais e os restos dos banquetes nos tonéis de lixo que alimentariam vilas inteiras.


Essa humanidade também tem seu timer, o implacåvel tic tac. Tenha fé, essa dinamite não estå na mochila deixada na estação de trem, nem amarrada no corpo de uma criança bomba. Também não estå no smartphone, no tablet israelense, nem no colchão de poliuretano. Estå no prato na sua frente repleto de macarrão de trigo, molho de tomate e muita ùnsia de tapar buracos.


A ùnsia de encher a barriga para não pensar em nada a não ser matar o que estå te matando, essa angustiante contagem regressiva. Até as oitenta famílias implodirão.

Boa digestĂŁo.

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